Se Você Agir Sempre Com Dignidade, Talvez Não Consiga
Mudar o Mundo, Mas Será Um Canalha a Menos." (J.F.Kennedy)
Há poucos dias a televisão mostrou cenas de norte-americanos presos e algemados, em razão de seus filhos não estarem indo à escola. Uma cena normal para qualquer cidadão dos Estados Unidos, onde a justiça atua com rigidez e eficácia.
Imaginei a mesma cena no Brasil. Grandes manchetes divulgando o absurdo do ato e a violência policial. Pais entrando na justiça buscando indenização. Policiais sendo punidos por superiores que se importam mais em agradar a opinião pública ou em seguir ideologias do que em cumprir a lei. Defensores dos direitos humanos colocando suas amplas e sempiternas faces frente a câmeras, bradando veementemente contra o abuso. O Brasil é assim: todos parecem ter direitos, ninguém parece ter deveres. Afinal, Deus é brasileiro e aqui é o melhor lugar do mundo para viver.
Nossa sociedade, nas últimas décadas, sofreu grandes transformações em comportamentos, crenças e valores. Algumas, polêmicas, como o caso da sexualidade: o que era errado, proibido e pecaminoso tornou-se parte do café, almoço e jantar de pessoas de todas as idades, quase sem censura e sem limites. Outras, totalmente deletérias como a incorporação do "jeitinho brasileiro" e da "Lei de Gérson", verdadeiros "canceres sociais" que, com a idéia de normalidade, atropelam leis e princípios éticos e morais. Podendo-se dar um "jeitinho" e levar vantagem em tudo, aprova-se o "Ele rouba, mas faz" que, pasmem, ainda elege certos candidatos. Patético? Certamente. Mas bem brasileiro. Assim, cola-se na escola e na faculdade, porque é normal. Os filhos colam porque o pai colava. O professor vê, mas não reprime, porque também colava e até acha aceitável, ou normal. Ou se não acha e quer punir, não pode, porque o diretor ou o reitor não deixam, porque também colavam e isto é normal. Consequentemente, é normal termos profissionais liberais, políticos, juizes, policiais, enfim, cidadãos incompetentes, desonestos e imorais.
Não surpreende, portanto, numa sociedade estruturada com tais valores, que a permissividade, a ideologia, a "politicagem" e os interesses escusos tomem o lugar da lei. Não surpreende, também, que num país onde a civilidade e a cidadania estão mais associadas ao desrespeito e a vantagens pessoais do que à ordem, ao respeito e ao equilíbrio social, mudanças como a introdução de controladores de velocidade tenham tantos e tão ferrenhos inimigos. "Direitos inalienáveis do cidadão" concedem direitos iguais a desordeiros, a criminosos e a honestos.
Associar criminalidade a causas como exclusão social, concentração de renda e crise econômica é ver somente parte da realidade, porque elas não são causas, são conseqüências. A crise brasileira não é apenas econômico-social: é, principalmente, moral.
É imperativo, portanto, que comecemos a transmitir novas mensagens aos cidadãos de agora e às futuras gerações. Mensagens que levem ao estabelecimento e restabelecimento de princípios éticos e morais e à noção do dever cívico para a conquista de direitos. Neste processo, os meios de comunicação, pela sua importância formadora e transformadora das percepções e do comportamento humano, têm grande responsabilidade e papel primordial.Artur Diehl - Psicólogo - Mestrado em Psicologia Clínica. BRAINSPOTTING e COGNITIVO-COMPORTAMENTAIS. Especialização em EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing).
*Este artigo foi publicado na Zero Hora (POA)




